domingo, 18 de maio de 2014

CONTO DA URNA ELETRÔNICA

Almir M. Quites – 05/05/2014

O PROTESTO DO JOÃOZINHO

Ainda tem quem não acredite que o homem foi à Lua. Há quem só acredite no que lhe convém. Por isso, não solicito nem espero que se dê crédito à história que vou narrar. É apenas um conto!

Sabe, o Joãozinho? Pois é, ele mesmo, aquele menino desbocado, sacana, inteligente e virtualmente muito conhecido nos ambientes férteis de problemas. Ficou famoso, o menino! Até fizeram estátua de bronze iridiado.

Não se preocupem, ao contar a história, vou omitir os palavrões.

Quem diria, mas Joãozinho cresceu e chegou à idade de se tornar eleitor. Chique, não é? Joãozinho, cidadão eleitor!


Joãozinho chegou à seção eleitoral esbaforido e atrasado para cumprir, pela primeira vez, seu dever cívico de votar na eleição para Presidente da República. Chegou e viu aquela enorme fila para votar. Ficou mal-humorado. Apressara-se tanto e agora tinha que ficar parado numa fila.

A fila foi andando e ele foi se aproximando da porta de entrada da sala de votação. O primeiro da fila entrava, identificava-se para o presidente da mesa, o qual digitava o número do eleitor em seu computador e, depois de assinar o boletim, o eleitor se dirigia para a cabine eleitoral, onde digitava números na urna eletrônica, apertava o botão CONFIRMA, voltava à mesa eleitoral, recebia de volta sua identificação e saia. Outro eleitor entrava, identificava-se, assinava o boletim, dirigia-se para a cabine e lá digitava números na urna, apertava o botão CONFIRMA, voltava à mesa eleitoral, recebia sua identificação e saia. Outro eleitor entrava, identificava-se, assinava, ia à cabine, digitava...

Finalmente chegou a vez de Joãozinho.

Ele entrou na sala, identificou-se, assinou, foi à cabine, digitou... Quando saía o Presidente da Mesa alertou:

 — "Você não apertou o botão CONFIRMA!"

Joãozinho movimentou a cabeça para os lados, como costumava fazer quando queria contrariar. Agora ele queria, em parte porque estava irritado. Começou com um palavrão:

 — "%^!@#$", disse ele, "então este seu computador aí mostra o que eu faço lá dentro da cabine?"

 — "Não", disse o presidente, "só mostra que você não apertou o botão CONFIRMA".

 — “p&# q @<:#^!”, quer dizer que você sabe em que teclas eu apertei ?!"

 — "Se você não voltar lá e apertar o botão eu terei que anular o seu voto".

 — "Ah, é!", ressoou Joãozinho, "então você aí, no seu computador, pode anular o meu voto?"

Na sala e na fila já havia um princípio de alvoroço. Um repórter da TV foi logo anotando em seu caderninho: "o presidente de mesa pode saber o que o eleitor digita na urna eletrônica" e "o presidente pode anular o voto do eleitor". Então gritou: 

 — "Presidente, pode me dar uma entrevista?"

O presidente, ignorando o repórter e já impaciente, dirigiu-se ao Joãozinho dizendo: 

 — "Só posso anular seu voto antes de você apertar o botão CONFIRMA!"

 — "Ah! Então você confessa! Olha aqui, olha, gravei isto no meu celular. Você confessou que pode anular o meu voto antes de eu apertar o botão CONFIRMA. Quantos votos você já anulou hoje? Assim você anda violando o sigilo do voto".

 — "Presidente", gritou o repórter, "uma entrevista, por favor!". 

O vozerio na antessala mostrava indignação. Ninguém havia pensado nestas coisas.

 — "Vou ter que chamar a polícia", gritou o Presidente de Mesa, "isto aqui já está virando bagunça! Eu não sei o que acontece depois que você aperta o botão CONFIRMA, mas eu tenho que mandar você apertar aquele sinistro botão, senão eu anulo seu voto!"

 — "Presidente, uma entrevista para a TV!"

 — Joãozinho assumiu uma postura dramática e, ao mesmo tempo, solene. Fez-se um pouco de silêncio na sala.

 — “Eu não quero votar em branco e não quero anular meu voto, mas se eu apertar o sinistro botão CONFIRMA serei o executor, o assassino do meu próprio voto, justamente no momento do seu nascimento. Não vou eletrocutar meu voto! Esta urna funerária vai incinerar meu voto para sempre, nunca mais ninguém vai vê-lo, nunca se saberá se foi contado honestamente, como ele merecia.

Ouviu-se um princípio de aplauso.

 — "Calma, senhor João! Eu nunca tinha pensado nisso! Acho que o senhor está certo, mas eu tenho que mandar o senhor apertar aquele botão, senão eu terei que anular seu voto! Infelizmente!"

 — "Presidente, conceda uma entrevista para a TV! A urna é um computador ligado a outros computadores. Pergunto: o senhor tem fé na honestidade dos programas de todos estes computadores? Não será esta a urna funerária da democracia? Cada eleição assim não seria um Golpe de Estado? Este sistema eleitoral é transparente? Em sua opinião, ele é constitucional?"

O tumulto recomeçou. Não foi mais possível controlar o alvoroço, porque havia muitos Joõezinhos em todas as filas eleitorais do país. O protesto dos Joõezinhos diante da urna eletrônica teve um poderoso efeito, como jamais fora imaginado.

O que aconteceu depois?

O misterioso tempo passou e, como sempre acontece, foi desmontando tudo, exceto algumas poucas instituições, alguns registros históricos, memórias e memoriais em bronze iridiado!

Cem anos se passaram!

Estamos agora numa Escola. Óbvio que, apesar da importante data, não é feriado, como seria no século anterior. O menininho estudava na sala de aula de História. Ele e seus coleguinhas liam, no e-livro didático, o capítulo referente àquele dia do ano na História. O título era "A REVOLUÇÃO DOS JOÕEZINHOS". Então o menino observou:

 — "Professora, agora eu entendi! É por isso que até hoje usamos urnas transparentes sem circuitos eletrônicos!"

 — “Muito bem, Joãozinho, conclusão correta! Elas são muito mais baratas e seguras. Todos podem apurar os votos, somar e conferir os resultados. É assim que deve ser. Urna eleitoral não deve esconder do povo o que acontece lá dentro. Todo o eleitor, mesmo aquele que não detenha conhecimentos tecnológicos, tem o direito de votar em sistema que lhe permita conferir, pessoalmente, por seus próprios meios e conhecimentos, se o seu voto foi contado corretamente”.

Demorou, mas eles aprenderam! Como dizem em Hauntingland, “Little Johnny was our master”.


Em vez de votar em branco ou de anular seu próprio voto, Joãozinho levou os mesários, representantes oficiais de nosso falho sistema eleitoral, a um impasse.
Joãozinho votou para Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador e Governador, mas quando chegou o momento de votar para Presidente da República o "dedo brochou"! E agora? Se o presidente de mesa anular o seu voto, terá votado em seu lugar (fraude do mesário) e também terá violado o princípio do sigilo do voto (a autoria do voto deve ser secreta), o que é ilegal, inconstitucional; se, no entanto, o presidente não anular o voto do Joãozinho, que se absteve de votar para presidente, então o boletim de urna terá que expressar que há mais eleitores que voto, o que impugnaria a urna. 
Como fica?

Moral da história: É como na relação sexual, o ato de votar tem que ser seguro!
Mas, na urna eletrônica brasileira a insegurança é tanta que o dedo brocha!


O mais importante de tudo é não mentir nem omitir. Precisamos conscientizar o povo, o qual somos todos nós. De omissão em omissão, o tempo passa e nos tornamos cúmplices da falsidade.
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COMPROVAÇÃO

O protesto do Joãozinho, descrito acima, foi testado por mim nas eleições gerais de 05/10/2014. De fato, o presidente de mesa me pareceu confuso, consultou seu manual e anulou todos os meus votos. ele me informou que estava anulando apenas o último, mas o boletim de urna comprovou que todos foram anulados. Isto comprova que o mesário, a partir de um comando em seu terminal, pode interferir no voto do eleitor. O terminal do mesário conecta-se com a urna eletrônica. É mais uma porta aberta à fraude.
Redigi um depoimento no dia seguinte. Para lê-lo na íntegra, clique aqui.

Veja também o vídeo: ELEIÇÕES NA KREDULÂNDIA _____________________________________________


Leia mais sobre o mesmo tema:
  1)    Sobre o sinistro botão CONFIRMA, clique aqui:  http://almirquites.blogspot.com.br/2013/12/exige-se-fe-na-urna-eletronica.html

  2)    Sobre a constitucionalidade da urna eletrônica, leia aqui:  http://almirquites.blogspot.com.br/2013/06/a-inconstitucionalidade-da-urna.html

  3)    Urna eletrônica ou urna de lona? O que é melhor? Confira aqui:  http://almirquites.blogspot.com.br/2013/10/urna-eletronica-ou-urna-de-lona.html

  4)    Hauntingland: referência a outro conto. Veja aqui:  http://almirquites.blogspot.com.br/2014/04/uma-noite-em-hauntingland.html
   5) Entrevista com Diego Aranha
      https://www.youtube.com/watch?v=xATaNCsre9Q#t=64
   6) Conheça o código eleitoral brasileiro. Publicação organizada pela Coordenadoria de Jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral com as normas afetas às legislações eleitoral e partidária, dentre as quais se destacam as leis 4.737/1965, 9.096/1995 e 9.504/1997, bem como as normas editadas pelo TSE, todas acrescidas de notas jurisprudenciais e remissivas. Como novidade, a publicação contém notas indicando os dispositivos alterados pela Lei nº 12.891/2013.
       Código eleitoral brasileiro e legislação complementar (pdf para "download").
   7) Versão eletrônica, prevista para ser a mais completa do Código Eleitoral, pois passa por atualizações regularmente. Atualizado até 12.12.2013 - Faça o download: 
8  8) A urna eletrônica é falha (alerta o próprio Ministério Público Federal)

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