domingo, 8 de outubro de 2017

A agonia brasileira

Por Almir M. Quites



O Ângelo (amigo e enteado que vive na Europa), escreveu no seu Facebook, o seguinte texto que transcrevo e depois comento:

" 'Eu vivia esperando a vida aparecer no Jornal Nacional
Com o olhar preso no vídeo
eu esperava o suicídio de algum boçal
Você apareceu e disse
Cara, eu prefiro outros canais'
  • (Engenheiros do Hawaii, 1986).



Não é a primeira vez que, ouvindo o antigo grupo Engenheiros do Hawaii, eu sinto que Gessinger estava muito à frente do seu tempo e o tempo se repete, de novo e de novo! Os primeiros três discos foram muito bons ideologicamente e musicalmente!"

... E continuou a reproduzir outros textos do mesmo grupo, como os seguintes:


  •  De 1987

"No dia a dia da nossa aldeia
Há infelizes enfartados de informação
As coisas mudam de nome
Mas continuam sendo o que sempre serão
Você sabe o que eu quero dizer
Não tá escrito nos outdoors
Por mais que a gente grite
O silêncio é sempre maior"

"Todo dia a gente inventa uma alegria
A gente esquenta a água fria
E ignora a bola fora
Toda hora a gente dá um desconto
A gente faz de conta
Mas chega a um ponto em que ninguém mais quer saber 
(...) 


  •  De 1988

Fascistas de direita
Fascistas de esquerda
Empresas sem fins lucrativos
Empresas que lucram demais
E todo dia a gente inventa e fantasia
A gente tenta todo dia
Feitos cegos
Egos em agonia"


E assim ele segue expondo a agonia da época em que findou o regime militar.

Os Engenheiros do Hawaii expressaram toda a inquietação de uma época que teima em ressurgir como mais um ciclo da roda que nos mantém tontos.

Antes de tratar do conteúdo dos textos acima, preciso enfatizar que não são "versos de pé quebrado", como poderia parecer, mas sim letras de músicas dos Engenheiros do Hawaii (ver as duas notas 1 e 2 após este texto). 


Passo agora ao comentário principal.

Concordo e admiro o conteúdo dos textos acima. O Brasil patina e afunda na lama há séculos. Sempre voltamos atrás, como no filme "O dia da Marmota" (o Feitiço do Tempo), o famoso filme norte-americano de 1993, com o conhecidíssimo ator Bill Murray.

Agora, por exemplo, muita gente defende o Golpe Militar como solução para o Brasil, com os mesmos argumentos do tempo que antecedeu o Golpe de 1964. Até querem nos convencer que não houve uma ditadura, apenas "um governo militar" (cínico eufemismo)

Ditadura militar é o regime onde impera a "Lei do mais forte".

Também houve corrupção no regime militar, feitas por militares, e muitas delas vieram à tona, apesar da censura, da repressão e todo o tipo de blindagem sobre o Legislativo, sobre o Judiciário e a imprensa.

Hoje, época da hipocritamente chamada "pós-verdade" simplesmente deslavadas mentiras ━, apregoa-se que a ditadura militar (1964 -1985) foi uma maravilha! Não, foi! A Polícia Federal e o Ministério Público estavam a serviço do governo militar (não do povo), havia atos institucionais monocráticos, houve fechamentos do Congresso Nacional, houve censura aos meios de comunicação, prisões ilegais e desaparecidos, cassações arbitrárias de políticos de eleitos (cerca de duzentas, só de deputados federais), houve parlamentares, governadores e prefeitos "biônicos" (colocados em cargos eletivos sem eleição alguma),  houve repressão, candidatos a cargos públicos tinham que ser aprovados pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) (Nota 3) etc. Contestar o governo era crime! 

Hoje mentem que tínhamos um paraíso no Brasil!

A grande maioria dos que hoje fazem a apologia do Golpe Militar nem eram nascidos em 1964 ou estavam na infância ou na puberdade. Não podiam compreender o que se passava. Outros, mesmo sendo adultos, não compreenderam ou não quiseram compreender.

Ainda não aprendemos que, em política, não há soluções fáceis, muito menos mágicas, e que não se corrige ilegalidades com outras ilegalidades, nem se corrige atos criminosos com mais violências!

A falta de paciência e de trabalho cooperativo, dentro do respeito e da legalidade, vai nos manter no mesmo atoleiro. Parece o comportamento infantil de querer as coisas sem ter que trabalhar por elas.


Revivemos hoje as aflições do início da década de 1960, só que com uma crise econômica maior, que nem greves comporta.


Para mim, a saída para a crônica crise brasileira está na mobilização popular, no repúdio a este processo eleitoral de cartas marcadas e a esta Constituição anti-cidadã (feita pelos políticos e para proteger os políticos). 

Para mim, a saída está na Desobediência Civil, na exigência de uma Constituinte exclusiva, absolutamente independente de partidos e de seus políticos. São estas as coisas os brasileiros precisam aprender a fazer.

O que não funciona é confundir desejo com realidade; defender soluções mágicas, como golpe militar ou candidaturas populistas, enquanto se mantém este presidencialismo de coalizão corrupta e esta farsa eleitoral.

Isto é repetir o que os brasileiros vêm inutilmente fazendo há séculos. Nenhuma solução virá de cima, destes políticos que consomem suas vidas para obter poder. Estes não cederão o poder conquistado neste sistema político. É o povo quem precisa conquistar o poder sobre os políticos.  Não basta substituir uns por outros. 

Estamos repetindo sempre os mesmos erros!

Assim, continuaremos na sequência de crises, presos à roda do tempo!

Leiam aqui:
Intervenção militar, não!
http://almirquites.blogspot.com.br/2017/04/intervencao-militar-nao.html



`°•○●□■♢《•••••••••••• AMQ••••••••••••》♢■□●○•°`


NOTA 1:
"Engenheiros do Hawaii" é uma banda brasileira de rock, formada em Porto Alegre (na década de 80) por Humberto Gessinger, Carlos Stein, Marcelo Pitz e Carlos Maltz, que alcançou grande popularidade com suas canções líricas e críticas.

NOTA 2: Nos textos musicais, o ritmo é regido pela música, diferentemente de um poema, no qual o ritmo tem de estar no próprio texto. Numa poesia, tem que haver métrica, caso contrário o ouvido sofre e se diz que é "verso de pé quebrado". Nesta época em que tudo é aceitável (até crimes), sinto saudades do tempo em que se distinguia bem entre poesia e prosa.

NOTA 3: O Serviço Nacional de Informações nasceu em julho de 1964. Era o chamado "serviço secreto", serviço de espionagem. O serviço secreto brasileiro teve, ao longo de muitas décadas, siglas diferentes – Sfici (Serviço Federal de Informações e Contra-informação), SNI (Serviço Nacional de Informações), DI (Departamento de Inteligência), SSI (Subsecretaria de Inteligência) e Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

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Há uma outra música cuja letra, a meu ver, merece destaque e que acrescento aqui. É a seguinte:

DOM QUIXOTE (2001)
➠ Engenheiros do Hawaii

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d'água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra
Vaidades que a terra um dia há de comer
Ás de Espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário
Muito prazer, me chamam de otário

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Muito prazer, ao seu dispor
Se for por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas
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