quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A FÉ CEGA!

Almir M. Quites - 21/01/2015

 ou crença é a convicção de que algo é verdade, mesmo sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança depositada na ideia ou na fonte que a transmitiu. A fé é a absoluta abstinência de dúvida. Portanto, é impossível duvidar e ter fé ao mesmo tempo. Estas palavras se relacionam semanticamente com os verbos crer, acreditar, confiar e apostar, embora estes três últimos não necessariamente exprimam o sentimento de fé, porque admitem uma dúvida parcial, como o reconhecimento da possibilidade de ocorrerem enganos.

Crença e verdade científica são conjuntos diferentes, embora tenham interseção. A verdade científica não é como a verdade filosófica ou religiosa: a científica é contestável e, portanto, provisória. A verdade científica submete-se permanentemente à dúvida e à prova. A ciência se baseia no empirismo para criar suas explicações para o mundo e para a formulação dos modelos científicos. Quem se ampara na crença, quando esta contradiz a verdade científica, o faz apenas por uma necessidade pessoal de caráter psicológico. Logo, mente para si mesmo. A fé o cega e seda.

Vou contar uma história verídica! Um exemplo de como a fé ataca e prejudica o crente, esbulha a honestidade e espolia o raciocínio.

Quando eu estava ainda na ativa, como professor da UFSC, ministrei aulas num curso de especialização sobre segurança e higiene no trabalho. Numa das aulas, um aluno foi insistente na afirmação de que poderia fazer diagnósticos médicos usando uma câmera Kirlian. A câmara Kirlian produz fotos das descargas elétricas provenientes do dedo de uma pessoa ou de 
qualquer outra amostra, seja biológica ou não biológica, através do ar ionizado por um campo de alta freqüência. A película fotográfica é colocada entre o dedo (terminal Terra), e a placa da máquina (terminal energizado). O fenômeno físico é simples e muito conhecido, mas os usuários da câmera Kirlian acreditam que estão fotografando a aura da pessoa, ou seja, a zona luminosa, mas invisível, que envolveria o corpo humano e que “só os que possuem elevada espiritualidade podem ver”. Como saber objetivamente se alguém tem “elevada espiritualidade”? Espiritual é atributo de algo intangível, indetectável, incorpóreo, portanto alegórico, místico. Então, propus ao aluno que, esquecendo a questão da aura, verificasse, pelo emprego da metodologia científica, se os diagnósticos eram mesmo possíveis. Este poderia ser o seu trabalho de conclusão do curso, o qual tinha por objetivo familiarizar o aluno com a prática da metodologia científica. 


Fotos Kirlian do dedo e de uma folha.
O trabalho consistiu em fazer muitas fotos tipo Kirlian de dedos de pacientes do Hospital Universitário sem que ninguém soubesse de quem se tratava. A identificação só seria feita posteriormente por meio de um código. Antes desta identificação, o aluno faria seus diagnósticos comparando as fotos com padrões estabelecidos por um “pesquisador famoso" (famoso no meio místico), chamado Milhomem (só me recordo do sobrenome). O livro do Milhomem era um atlas de fotos Kirlian e seus diagnósticos.

Depois disto, fomos verificar a qualidade dos resultados, confrontando com os prontuários médicos. A grande maioria dos problemas diagnosticados (como problemas renais, cardíacos, intestinais, pulmonares, psiquiátricos etc.) estava errada. Outros médicos e funcionários do hospital também tinham participado do experimento, inclusive eu e minha filha. Portanto não havia só doentes na amostra. Algumas conclusões foram surpreendentes. Por exemplo, a foto Kirlian do meu dedo teve o diagnóstico de drogado; o mesmo aconteceu com a minha filha e um dos médicos do hospital. Um dos diagnósticos foi de câncer no útero, no entanto o paciente não possuía útero, era um homem!

A análise por método estatístico revelou que os pouquíssimos acertos eram simples obra do acaso.

O aluno teve seu trabalho aprovado por ter usado corretamente o método científico e concluído corretamente que este tipo de diagnóstico era falho. No entanto, eu me desiludi de meu aluno completamente, porque, depois de tudo isso, ele me disse que acreditava muito mais nos seus diagnósticos do que naqueles constantes dos prontuários médicos, ou seja, para ele eu e minha filha éramos drogados e o homem tinha útero.

Cerca de seis meses mais tarde, vi um anúncio na parede da Copyflor (hoje PostMix) onde meu ex-aluno anunciava seus diagnósticos médicos com a câmera Kirlian e lá constava inclusive o preço da consulta. Ele era engenheiro e não médico. Típico charlatanismo (*).


A fé pode cegar completamente e talvez seja até incurável.

Parece-me que e fanatismo (**) são sinônimos, embora este último termo me pareça ser um pouco mais forte e perigoso. Não sei bem o porquê! Fanatismo é uma devoção incondicional, exaltada e absolutamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção. Em geral, o fanatismo também se caracteriza pela intolerância em relação a qualquer antagonista. A diferença, se existir, pode estar no fato de que o crente apenas evite o debate livre, enquanto que o fanático revida com agressão verbal ou mesmo física.



O fanatismo, mais que a fé, atenta contra a Liberdade de Expressão, que é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos, sem que isto implique em crime contra outrem, como a injúria, a difamação. Nestes casos, o ofendido pode recorrer aos tribunais para obter as reparações devidas e as penas cabíveis. A Liberdade de Expressão, especialmente a pública, é fundamental ao desenvolvimento da humanidade. Ela é o suporte fundamental de qualquer democracia. Os governos verdadeiramente democráticos não controlam o conteúdo dos discursos escritos ou verbais. Assim, geralmente as democracias têm muitas vozes exprimindo ideias e opiniões diferentes, inclusive contrárias.

O fanático não se reconhece como fanático. Ao contrário, ele se acha racional, apenas está a serviço de uma causa nobre. Ele se sente superior aos demais, àqueles pobres seres que não têm a compreensão que ele possui.

Já que vivemos intensamente este momento em que o mundo trata de reafirmar a LIBERDADE DE EXPRESSÃO como um valor fundamental ao desenvolvimento da humanidade, parece-me pertinente enfatizar que os efeitos do fanatismo vão muito mais além do que comumente se supõe. O fanatismo embota a razão de comunidades inteiras, até de países, e assim pode ter o alcance de uma epidemia planetária. Aplica-se também ao atual contexto do terrorismo islâmico. Explica também o contexto do terrorismo eleitoral das últimas eleições brasileiras, bem como o da imprensa e das redes sociais. Claro, neste caso a fé não é religiosa e chama-se comumente ideologia política. Mas é fé e não é menos cega.

No Brasil não aconteceram atos tão graves como o da chacina do Charlie Hebdo, mas nota-se que a natureza do fanatismo é a mesma. A diferença é apenas de escala! Foi o que se viu no ataque à redação da revista Veja, por causa da publicação, às vésperas das eleições, de partes do depoimento, em delação premiada, do Paulo Roberto Costa (o "Paulinho", como Lula carinhosamente o chamava), que comprometiam justamente a candidata-presidente e alguns dos seus mais caros apoiadores.

Até estendo um pouquinho mais: quando aqui, entre nós, nos blogues e nas redes sociais, missivistas desconsideram os argumentos dos opositores e atacam diretamente a pessoa do adversário, ofendem seus antagonistas, também aqui, a natureza do fanatismo é a mesma. No Facebook, por exemplo, isto é muito comum. Amiúde as ofensas são de "baixo calão" (aqui cabe o pleonasmo como reforço), o que bem mostra o baixíssimo nível de educação e a indelicadeza da maioria do povo brasileiro, perceptível inclusive na mídia, meios de comunicação de massa, como rádio e TV. É a falência da família, da Escola, do Estado. É a falência do Brasil.

Sim, fanatismo cega, seja ele religioso ou político-ideológico, e transforma os fanáticos em brinquedinhos amestrados, frequentemente instados à intolerância.

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(*) Charlatão:
adjetivo e substantivo masculino
Significados: impostor, trapaceiro, intrujão, burlão, aldrabão.
1. Que ou quem é inculcador de drogas, elixires e segredos de muito préstimo.
2. Que ou quem explora a boa-fé do público, inculcando os próprios méritos e erudição para enganar.
3. Que ou quem se faz passar por aquilo que não é.
4. Que ou quem exerce medicina de maneira incompetente ou sem estar habilitado.
5. Que ou quem quer mostrar qualidades que não tem.



(**) Fanatismo: substantivo masculino
1. Paixão religiosa do fanático.
2. Facciosismo partidário.
3. Adesão cega e inconsiderada a um partido, uma opinião, uma pessoa.
4. [Figurado] Paixão excessiva.

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Perseguição a cristãos no mundo
As mais cruéis manifestações de intolerância religiosa são promovidas por islamistas fanáticos e lembram de épocas passadas nas quais quem as praticava eram cristãos fanáticos.
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A INTOLERÂNCIA DA FÉ RELIGIOSA


Nigéria: Igreja Católica pede «manifestação de unidade» contra terrorismo do Boko Haram

Lisboa, 12 jan 2015 (Ecclesia) – A Fundação Ajuda a Igreja que Sofre (AIS) deu hoje conta da destruição de “cerca de mil igrejas cristãs na Nigéria nos últimos quatro anos”, às mãos do grupo fundamentalista islâmico Boko Haram.

Numa nota publicada através da internet, o organismo dependente da Santa Sé dá voz ao responsável de comunicação de uma das regiões católicas mais atingidas pela violência dos extremistas armados, a Diocese de Maiduguri, no Estado de Borno, a norte do país.

De acordo com o padre Obasogie, só entre os meses de agosto e outubro de 2014, foram “saqueadas” e “incendiadas” naquele território pelo menos “185 igrejas”.

O sacerdote recorda depois as 190 mil pessoas, membros da sua comunidade, que tiveram de fugir das suas casas para escaparem à morte e as muitas outras que já perderam a sua vida.

Para o responsável católico, a espiral de violência e de morte que tem sido perpetuada pelos membros do Boko Haram está a colocar em causa “a própria identidade territorial da Nigéria”.

Ainda este sábado (10/01/2015), a cidade de Maiduguri foi abalada por uma explosão que provocou a morte a pelo menos 27 pessoas.

Segundo a AIS, o engenho que provocou a tragédia foi transportado por uma menina de 10 anos e acionado remotamente pelos autores do atentado nas imediações de um mercado local.

O nome “Boko Haram” significa “a educação não islâmica é pecado”.

Os membros deste grupo pretendem através das armas implementar um Estado islâmico no norte da Nigéria.

Como se vê, a fé religiosa é intolerante até com a outra fé religiosa! 
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