sexta-feira, 2 de maio de 2014

AOS 72 ANOS DE IDADE, FUI VÍTIMA DE "BULLYING”

Almir Quites, 27/04/2014

Aos 72 anos de idade, fui vítima de “Bullying”, neste último domingo dia 27 de abril de 2014.

Vou contar a  história, que dá uma clara noção do fracasso de nossa sociedade. Ou será só aqui no meu bairro? Infelizmente não é só aqui!


Há uns cinco anos, construí três casas em um terreno grande, aqui em Ribeirão da Ilha e mudei-me para cá em busca de sossego. É uma espécie de condomínio fechado para a família, num local que eu acreditava ser tranquilo.
Neste último domingo à tarde, o dono de uma lanchonete que abriu na frente da minha casa, promoveu uma festa no clube ao lado, o Clube dos Quarenta, onde tem um campinho de futebol suíço. Havia um carro de som com o volume tão alto, mas tão alto, certamente mais de 100 decibéis, que eu tive que me fechar no meu quarto. Dentro da minha casa, o som era insuportável! Minha filha e meu genro, que moram ao meu lado, saíram de casa para fugir do ruído. Outro vizinho da frente fez o mesmo! Então decidi ir lá e falar com o cara, para pedir a ele que reduzisse um pouco o som do carro. Claro, que era um risco, mas não deveria ser! Lembrei-me do colega Prof. Kosel (cientista da Checoslováquia contratado pela UFSC), que foi assassinado por um vizinho, por motivo fútil! Mas alguém precisaria fazer algo, arriscar-se um pouquinho.

Cheguei lá, com aquele sofrimento de ter de me aproximar da fonte sonora, e vi muitas crianças, adolescentes e adultos entre 20 e 30 anos. Quase todos com um copinho de cerveja na mão. Encontrei o dono do carro de som e expliquei a ele, com calma, que o som estava incomodando os vizinhos. Então pedi que, por favor, reduzisse um pouco a intensidade. Ele a reduziu um pouco, acionando o controle manual e perguntou se agora estava bem. Respondi que sim, agradeci e me afastei. Neste momento ele tornou a aumentar o som, até mais alto que antes, numa evidente provocação. Voltei-me novamente para ele, mas fui rodeado por muitos outros que berravam "aqui é alegria", "vai..." e outras bobagens. O alto falante do clube anunciou "tem um cara aqui que quer abaixar o nosso som" (ou algo com igual significado). Imediatamente surgiu o dono da lanchonete, que promovia a festa (e, parece-me, faturava com ela). Chegou esbravejando "Nós temos o direito de fazer som até às 10 horas"! Tentei explicar que não se tratava do som, mas da intensidade dele. Ainda disse, "trata-se dos decibéis, é só baixar um pouco!", mas o cara gritava e o som automotivo era ensurdecedor. Como explicar algo, por mais simples que fosse? Então, um segundo carro de som, que estava quieto, também ligou o som no mais alto volume possível. Eram agora duas músicas, se é que se pode chamar de música. O cara da lanchonete avançava de peito contra mim, esperando uma reação e eu perguntava: "Queres me agredir?" Eu ainda o sustentava com meu corpo, quando atiram cerveja de um copo na minha direção. Os pingos, parece, atingiram mais a turma dele do que a mim, mas o alvo era eu. Com os braços levantados, o cara berrava: "Aqui é Ribeirão"! E repetia isso! 

Eis aí a valentia de um adulto jovem diante de um idoso.

Virei às costas e saí de lá, abatido, ofendido, triste, mas (meu consolo!) com a minha dignidade. Eles ficaram lá, rindo, naquela boçalidade. Todo o imbecil se acha "o máximo". O que vi lá foi um bando de adultos infantilizados, achando que divertir-se é beber cerveja naquele som ensurdecedor. Vejam que “belo exemplo” esses pais deram a seus filhos!

Atravessei a rua, cheguei a minha casa e, junto com minha esposa e meu cão (que se escondia dentro de casa para se refugiar do barulho), saímos de casa para voltar só à noite. Andamos por aí, de carro, sem carteira de motorista, sem dinheiro e sem celular. Esquecemo-nos de tudo isso! Como outros vizinhos, fomos expulsos de nossa própria casa!

Essa história de poder fazer barulho antes das dez é idiotice. A perturbação da paz pública é crime em qualquer hora. Não existe exceção na lei e não poderia haver. O lar alheio é inviolável, inclusive pela poluição sonora. O que o clube mencionado fez é crime em qualquer horário.

"Aqui é Ribeirão!", ficara na minha cabeça. Que significaria isto para aquele obtuso? Provavelmente ele se considera o dono de Ribeirão da Ilha e a mim como um estrangeiro invasor. Ora, ele nem era nascido e eu já era professor de engenharia na UFSC. Eu conheci Ribeirão bem antes dele nascer. Eu comprei o terreno onde moro hoje! Bem, deve ser difícil para “o coitadinho” entender isso!

Sei que o problema está nele, não em mim, mas não posso esperar qualquer apoio por aqui. A comunidade é simplória, passiva. Muitos deles adoram ir assistir jogos de futebol na pequena lanchonete, onde fazem algazarra enquanto bebem cerveja e comem uns salgadinhos. Esta lanchonete não existia quando comprei o meu terreno, nem deveria existir, porque a zona era residencial, mas dizem que o Plano Diretor mudou. Agora, a minha calçada fica cheia de carros estacionados sobre ela, às vezes até na frente do meu portão de acesso do carro.

Que fazer? Eu e outros que já tentamos chamar o 190 (da polícia militar), em outras oportunidades, no decepcionamos. Eles informam que "virão, assim que tiverem uma viatura disponível", mas nunca aparecem. Concluo que este tipo de ocorrência é insignificante para eles. Há alguns anos, cheguei a fazer um BO (boletim de ocorrência), mas o boletim ficou engavetado e não gerou qualquer ação. A delegacia de Ribeirão tem só o Delegado, mais ninguém, não tem pessoal, nem viatura. Em outras palavras, a estrutura de proteção social existe, mas nada funciona.

Estou pensando em comprar um outro terreno grande, em outro local, e voltar a construir!

Florianópolis não era assim! Ribeirão da Ilha não era assim! O que está acontecendo? Até os candidatos a prefeito, em suas carreatas, desrespeitam a Lei.

Dizem-me que não é só aqui em Floripa, mas em todo o Brasil.

Em uma cidade não existem só problemas relacionados a violência, drogas, etc. A perturbação da ordem é também um problema que precisa ser levado a sério, até porque brigas motivadas por som exageradamente alto, também podem acabar em morte. Precisamos não apenas de saúde, emprego, educação, segurança, mas também de descanso e de sossego. Precisamos dormir bem, precisamos estudar e, principalmente, pensar. O som, acima de 80 decibéis faz mal a saúde.

Por que a polícia rodoviária não aplica pesadas multas nos motoristas que usam o som automotivo? Não entendo porque os policiais não podem usar a própria audição para constatar que há perturbação do sossego público.

A sensação é de que o Brasil quer ser barulhento e burro! É a falência do sistema educacional.

Precisamos reagir. Se reagirmos, unidos, jamais seremos vencidos!
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