sábado, 22 de julho de 2017

Poder militar e sociedade

Por Almir M. Quites


Antes de tudo, confesso a vocês que não sei quem é José Márcio Castro Alves, este que aparece no vídeo abaixo sendo entrevistado no J10 da Globo News. É possível até que este vídeo seja falso (hoje é chique dizer "fake"!), posto que, nas redes sociais, é preciso muito cuidado com as mentiras, as fofocas, assim como com as montagens e edições fraudulentas. 

No final do vídeo, por exemplo, aparece uma multidão de verde e amarelo na Praça do Três Poderes e o texto, sobreposto à imagem, sugere que todos lá reivindicavam uma Intervenção Militar, no entanto, tenho certeza que não era isso! 

Veja o vídeo: 
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Fonte: https://youtu.be/Vpz4FgV6qMk 

Há claros indícios de edição. Por exemplo, naquela tela do Jornal da Dez (J10) em que normalmente aparecem os comentaristas de outras cidades nunca apareceram entrevistados, como se vê neste vídeo, só comeentaristas da própria TV Globo. É curioso que não aparece nenhum dos entrevistadores fazendo perguntas. Além disso, há inserção de cenas de outros jornais e de outros tipos de vídeos. Por coisas deste tipo, tudo indica tratar-se de fraude. A desonestidade não é só em relação a todos os participantes das redes sociais, mas também em relação a própria Rede Globo de Televisão, que malandramente aparece como se fosse a autora das cenas da entrevista.

Enfim, por via das dúvidas, espero que vocês, leitores, ajudem-me a acrescentar outras observações como estas.

De qualquer forma, como o suposto entrevistado pode parecer muito convincente, decidi alertar que o que  ele diz não é verdade. Portanto, passo a tratar do conteúdo do vídeo. 

Parece-me, a princípio, que o entrevistado fala a partir de concepções rudimentares. 

Agora, explico por quê não concordo com o que este cidadão diz.

No vídeo, José Márcio Castro Alves já começa dizendo uma bobagem, a qual revela sua crença em um antigo mito de caserna, que conheci há mais de 60 anos, porque sou filho de militar. Refiro-me à afirmação que toda a organização social seria resultado do uso da força bruta. Não é assim, nem em pequenos grupos, nem em países inteiros. Se assim fosse, o normal, no mundo, seria a ditadura militar. Isto obviamente não é verdade. Só cerca de 1/4 do países do mundo são ditaduras militares.

Os países mais desenvolvidos e justos do mundo são democracias nas quais as forças armadas cumprem estritamente sua função constitucional. Sempre que os militares intervém usurpando poderes, a sociedade trata de afastá-los, o que pode ser árduo e demorado, mas as forças da sociedade sempre se impõem sobre o poder militar. Esta luta por libertação pode ser realmente difícil, tanto como quando uma quadrilha, uma máfia civil, domina a sociedade, tal como acontece no Brasil.

Assim, a afirmação inicial de que "todo o governo é uma concessão do poder armado" não é correta. 

O suposto entrevistado também afirma que "toda a ditadura é militar, porque não há governo sem o apoio das forças armadas, seja com democracia ou ausência dela". Pelo contexto, a palavra "apoio" foi usada com o sentido de "concessão" (ou seja, "sem apoio nada feito"). Sendo assim, esta é outra frase reveladora. Segundo esta lógica toda a democracia seria um regime militar! Que frase confusa!

Na equivocada concepção do entrevistado, o poder militar não faz parte da sociedade, é algo à parte, com poder de decidir se a sociedade será ou não democrática. "Isto é milenar, é histórico,  é fato", diz ele, o que também não é verdade. A História mostra justamente o contrário. 

Aliás houve um confronto muito emblemático na Grécia antiga e, até hoje, muito estudado. Trata-se da guerra entre duas cidades-estados: Esparta e Atenas.

Vou contar esta história agora, embora resumidamente. Depois, voltarei a tratar da entrevista do vídeo em tela. 

Esparta x Atenas. Foi assim...

Esparta e Atenas, foram as principais cidades gregas contemporâneas de toda a Idade Antiga e representaram uma das maiores antíteses da época. 

Atenas era centro político e civilizacional do mundo ocidental no século V a.C. Lá foi o berço da democracia. Em praça pública debatia-se política e votava-se para escolher os principais líderes. As instituições atenienses tradicionalmente se preocupavam em desenvolver um equilíbrio entre mente e corpo. O sistema educacional se concentrava nas questões de saúde e no debate filosófico. 

Esparta era o centro militarista. Lá havia uma longa e intensa tradição militar. O sistema administrativo da cidade tinha a típica estrutura hierárquica militar. Privilegiava-se o treinamento do corpo e o manejo das armas. Os jovens espartanos aprendiam a escrever apenas o que fosse estritamente necessário. Dessa forma, o cidadão espartano deveria ser forte e resistente, um indivíduo apto para as batalhas militares. 

Quem venceu a guerra? Atenas!

Depois de sucessivas derrotas iniciais Atenas equilibrou o embate e esta se prolongou, com vitórias de ambos os lados que não eram decisivas. Esparta e suas cidades aliadas (Corinto, Tebas e Mégara) guerrearam por 27 anos contra Atenas e suas aliadas (Tebas, Corinto e Argos). Atenas hoje é a capital e a maior cidade da Grécia. Possui uma população de cerca de 3,3 milhões de habitantes, quase um terço da população total da Grécia. Esparta hoje é um município da Lacônia, Grécia. Situa-se no mesmo território da antiga cidade-estado Esparta. Sua população em 2001 era de 35.259 habitantes.

Claro que só este fato histórico isoladamente não prova que os poderes civis sejam maiores do que o militar, embora isto seja fácil de intuir e até de compreender. No entanto, há muitos outros fatos históricos que corroboram este. Inclusive há numerosos casos nos quais ocorre o inverso, ou seja, grupos civis dão o golpe nas Forças armadas de seus países. Líderes civis penetram nas forças armadas, assumem o comando e até passam a se trajar com o uniforme militar da mais alta patente. A seguir apresento uma pequena lista com alguns exemplos de penetras ("paraquedistas") que foram direto ao mais alto escalão e até adotaram o uniforme militar:
  • Getúlio Dornelles Vargas: era advogado e foi líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, depondo seu 13º e último presidente, Washington Luís.
  • Fidel Castro: era advogado formado pela Universidade de Havana. Dentro da universidade, envolveu-se na violenta cultura gangsterista lá existente. Liderou a revolução cubana.
  • Kim Jong-un: era da dinastia comunista da Coréia do Norte. Kim apareceu no cenário político em 2010, quando surpreendentemente foi nomeado general de quatro estrelas do Exército e vice-presidente da poderosa Comissão Militar Central do Partido dos Trabalhadores.
  • Idi Amin Dada: era soldado de um regimento colonial britânico, em 1946 e depois chegou a Major no exército ugandense. Depois do golpe de estado de 1971, autopromoveu-se a Marechal de Campo.
  • Adolf Hitler: era biscateiro, fazia bicos, incluindo o de pintor, vendendo aquarelas de locais turísticos de Viena. Entrou na política, transformou o governo alemão em uma ditadura. Levou a Alemanha a destruição na Guerra Mundial.
  • Nicolás Maduro:  era maquinista no Metrô de Caracas. Enquanto trabalhava como condutor, começou sua carreira política tornando-se um sindicalista não-oficial que representava os motoristas de ônibus do metrô. Hoje é ditador da Venezuela, em substituição a Hugo Chávez.
Maduro de farda

No inconsciente popular a farda militar é atavicamente emblemática. Representa o poder beligerante, o guerreiro e a proteção. Os políticos sabem disso.

Estes foram apenas alguns poucos exemplos. Existem muitos outros.

Claro que o poder militar, ao enfrentar um outro poder da sociedade, leva vantagem imediata e a mantém no curto prazo. No longo prazo, no entanto, ganha quem melhor interpreta a conjuntura. O regime militar, mostra a História, torna-se, a cada dia, mais tenso. 

O poder militar é eficaz para emergências, não para construir uma sociedade mais justa e desenvolvida.

Retomo, agora, a entrevista da Globo News mostrada no vídeo acima.

Ao contrário do que afirma o suposto entrevistado, é o poder militar que decorre de uma concessão da sociedade que se instituiu. 

Os poderes nacionais são, pelo menos, cinco: o político, o econômico, o psicossocial, o militar e o científico-tecnológico. Nenhum deles isoladamente é mais forte que os outros quatro. O poder militar é apenas um. Nenhum deles tem o direito de usurpar o poder dos demais.

Os recursos que os militares dispõem são gerados pela sociedade. As armas que lhes são dadas não devem ser usadas contra a sociedade que os mantém. Se os militares abusarem ou se sublevarem contra a sociedade, isto é ilegal, é golpe. Eles só podem agir quando o governo mandar, dentro do que estiver estabelecido na Constituição. 

Toda a crise interna é controlável, diferentemente da guerra externa. 

A crise brasileira é grave, mas temos que vencê-la de modo legítimo e legal, tal como estamos fazendo, para que as mudanças tenham permanência num patamar de desenvolvimento mais elevado. 

Estas mudanças serão morosas, difíceis de se conquistar, não apenas por implicarem em mudança de valores individuais em toda a população, mas também porque erramos muito, demais, destruímos os valores da nação, empossamos bandidos e semianalfabetos em cargos importantes. 

Contudo, temos um pacto de civilidade, temos leis. 

Estamos reagindo, como se vê na ação dos nossos jovens juízes e promotores. A Operação Lava-Jato e suas congêneres já são um sucesso extraordinário, exemplos mundialmente reconhecidos. Estas operações estão reeducando o povo que sofreu um longo processo de deseducação. As forças armadas devem atuar rigorosamente dentro deste pacto de civilidade. Em time que está ganhando não se mexe. 

Não destruam o que está sendo penosamente construído!

Para complementar e concluir este tema, continue lendo aqui:
INTERVENÇÃO MILITAR, NÃO!
http://almirquites.blogspot.com.br/2017/04/intervencao-militar-nao.html


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