domingo, 11 de setembro de 2016

Corrupção é da sociedade ou do governo?

Por Almir Quites


Na TV brasileira desfila um novo tipo de astro: o comentarista filósofo.

O vídeo abaixo apresenta um deles sendo entrevistado.

Este "filósofo" do vídeo não me convence! Por que? Por causa de um conjunto de percepções. Por exemplo: parece-me que ele nunca se posiciona claramente, mantém-se enigmático, doutoral, dogmático; sinto que não tem compromisso com a verdade, mas sim com a instigação, persuação; p
ercebo contradições, além de buracos negros para atrair incautos; e não o percebo como um amante da sabedoria. Aliás, ele se diz a favor da doutrinação nas escolas! 

Para me entender melhor, por favor, primeiro veja o vídeo, depois leia o meu comentário sobre as afirmações que ele faz.



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Leandro Karnal se expressa muito bem, portanto basta prestar atenção, pensar no que ele diz e se verá o quanto seu pensamento é confuso!



No vídeo, ele parte de uma premissa não explicitada, a qual é falsa. É a seguinte: 
"Nosso sistema eleitoral é perfeito, ou quase. A vontade do povo é soberana e se expressa no resultado das eleições. Os políticos são legítimos representantes do povo."

Esta premissa leva à conclusão de que deve haver um perfeito casamento entre a classe política e os cidadãos. O raciocínio de Leandro Karnal parte daí, porém a premissa é equivocada. Vamos pensar um pouquinho. 

As eleições, no Brasil são quase inúteis, porque: 
1) Os caciques dos partidos políticos escolhem os candidatos mais fiéis a eles próprios (limitando drasticamente as escolhas dos eleitorese assim se perpetuam no poder; 
2) Os especialistas em informática do TSE, por terem a faculdade de realizar secretamente a apuração eleitoral (o que viola a Constituição Federal)tiram a legitimidade das eleições
3) Muito dinheiro flui nas negociatas ilícitas de bastidores;
4) A obrigatoriedade do voto, num país como o nosso, em que 75% da população é analfabeta funcional ou totalmente analfabeta, faz com que a grande maioria dos eleitores seja presa fácil do populismo.

Por tudo isso e muito mais, não existe necessariamente esta simbiose ética entre governo e nação, especialmente quando o sistema eleitoral está roto e a classe política é quase imutável. 

É claro que é possível se ter um governo ético numa nação corrupta e vice-versa. Não sei quantificar estas possibilidades, mas garanto que não são pequenas.

Ainda que um governo fosse democraticamente eleito, num sistema eleitoral justo e perfeito, ainda assim, ao deixar de prestar contas de modo transparente, ao indicar e nomear corruptos para os altos escalões, inclusive do judiciário, ao usar os recursos públicos para fins ilícitos (
como para fazer propaganda de si mesmo e de seu partido e/ou para comprar votos no Congresso) etc., a nação não mais seria responsável pelo governo. Seria vítima dele. É por isso que é indispensável o instituto do impeachment ou o chamado "recall" (cassação e revogação do mandato de qualquer político, pelo eleitorado).

A sociedade brasileira, por exemplo, parece ser mais ética do que o governo. Inclusive luta arduamente para mudá-lo, embora só consiga vitórias parciais, como recentemente.

Além disso, deve-se ter muito cuidado com as generalizações. Estas, do Karnal, são injustas e incorretas. Ele disse, por exemplo, "não existe país com governo corrupto e população honesta". Como saber se uma nação é corrupta? Em que critérios objetivos se baseia o "corruptômetro" do Leandro Karnal?


Para Karnal a proposição correta é "se a população é corrupta, o governo será corrupto". Esta afirmação, além de equivocada, é perigosa, porque deixa a via aberta para "a população corrupta deve aceitar um governo corrupto" ou "o povo é corrupto, logo deve aceitar um governo corrupto". Neste sentido Karnal está repetindo a máxima de Ali Babá: "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", prorrogáveis por mais cem (por que não?). Até parece uma proposta de emenda constitucional a ser votada pelo Congresso, uma emenda de anistia e de impunidade futura.

Não, o astro filósofo não tem razão! Mesmo que a maioria da população fosse corrupta, ainda assim a maioria da população abominaria um governo corrupto. Nem mesmo o corrupto quer ser roubado.

A sociedade brasileira não é corrupta em sua maioria. Os governantes corruptos são uma pequena fração de toda a sociedade, uma fração que leva vantagem na política justamente por ser corrupta. Como se pode ter certeza de que a ética deste grupo tenha correlação com ética da nação? 


A grande maioria dos eleitores votam na presunção de que o candidato seja honesto. O político é que rompe com este compromisso implícito.

Também não vale a afirmação de que agora, no Brasil, "mudou o partido do governo e a corrupção continua" e que, portanto (segundo Karnal), isto é a prova de que "não há governo honesto em uma nação corrupta". Pronto, Karnal decretou que a nação brasileira é corrupta! 


Adianta argumentar o contrário? Vale tentar.

Em primeiro lugar, a mudança recente no governo brasileiro não foi completa. Mudou o presidente e assumiu outro de um partido aliado e que já fazia parte do governo. Enfatizo, quem assumiu a presidência foi um aliado da presidente anterior, da qual o atual presidente era o vice (
em dois mandatos). Logo, quem o escolheu foi a presidente anterior e seu partido. 

Em segundo lugar, dizer que a corrupção continua é uma precipitação reveladora de possíveis intenções ocultas, talvez de auto-engano. De que corrupção o novo governo é acusado? Ainda não houve tempo para se ter certezas deste porte. Qualquer historiador sabe disso ou, pelo menos, deveria saber. Além disso, não se acaba com a corrupção de um país da noite para o dia. É preciso um combate permanente e, mesmo assim, ela sempre existirá num nível remanescente. Claro que há um nível de corrupção endêmica.

Parece que o vídeo foi feito sob interesses ideológicos.


Quem adora dizer que "o povo é profundamente honesto, experimentado na ética e governado por ladrões" são os governantes populistas, mas só quando não estão no poder e lutam, sem ética, para derrubar quem lá está. Esta afirmação, em suas diferentes formas, sempre esteve presente na política brasileira, em toda a história da república. Por exemplo, Getúlio Vargas dizia isto e o PT também, mas, claro, enquanto eram oposição. 

O filósofo entrevistado ressalta, bem no início da entrevista, que a frase "somos um povo de trabalhadores honestos governados por ladrões" é de Carlos Lacerda. A frase de Lacerda não foi esta. Naquela época, quem usava a palavra "trabalhador" em vez de "povo" era Getúlio Vargas. Com esta citação, Karnal deixou no ar a ideia de que se trata apenas de uma frase demagógica. Pergunto: por que Leandro Karnal citou apenas Lacerda? Ele deve ter razões que a própria razão desconhece!

Esta citação foi a primeira coisa que me chamou atenção naquele vídeo. Parecia que algo estava fora do lugar.

Quero aproveitar o ensejo para claramente dizer que considero Carlos Lacerda um injustiçado. 

Eu já tinha 35 anos quando Lacerda faleceu (em maio de 1977). Lembro-me muito bem da sua história e, especialmente, de sua luta contra a ditadura de Getúlio Vargas, a qual continuou depois, quando Getúlio voltou ao poder, desta vez eleito, em 1950. 

Carlos Lacerda foi o expoente da oposição à Getúlio durante a campanha eleitoral e durante todo o mandato constitucional, até agosto de 1954. Neste mês e ano, Lacerda foi vítima de atentado a bala na rua Tonelero. No atentado, morreu o major da aeronáutica Rubens Vaz, membro de um grupo de jovens oficiais que se ofereceram para protegê-lo das ameaças que vinha sofrendo. Lacerda foi socorrido e levado a um hospital. Logo, as investigações mostraram que os mandantes do crime eram os ocupantes do Palácio do Catete, sede do poder executivo. 

A frase correta que Carlos Lacerda escreveu, naqueles dias conturbados, foi esta: "Somos um povo honrado, governado por ladrões". Lacerda tinha razão! A corrupção instalada na República foi comprovada. Dezenove dias depois do atentado à Lacerda, Getúlio Vargas se suicidou para escapar ao vexame de ser deposto, preso e ter que responder por seus atos na Justiça. Getúlio disparou contra seu próprio coração, em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. O Brasil era mesmo governado por ladrões.

Lacerda, ainda hoje injustiçado pela mídia de esquerda, nunca se envolveu em corrupção e foi um excelente governador do Estado da Guanabara. Foi ele, quem resolveu o centenário problema de abastecimento do Rio. Quem não lembra daquela marchinha de 1954, que cantava "Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz"? Lacerda construiu túneis importantes, como o Santa Bárbara e o Rebouças; reurbanizou do aterro do Flamengo; removeu favelas da zona sul e Maracanã; construiu inúmeras escolas e manteve um alto padrão de qualidade dos hospitais públicos. Em novembro de 1966, lançou a Frente Ampla, movimento de resistência ao golpe militar de 1964, que seria liderada por ele junto com seus antigos opositores João Goulart e Juscelino Kubitschek. Foi cassado em dezembro de 1968 pelo regime militar.

Por que Leandro Karnal se fixou em Carlos Lacerda? Parece que o vídeo foi feito sob a pressão de interesses ideológicos.

Como é difícil, mesmo para um historiador, ter isenção quando os fatos ainda são relativamente recentes! Veja, no artigo que indico a seguir, a dificuldade que se apresenta mesmo com fatos que ocorreram há quase sete décadas!
VIRUS DA DOUTRINAÇÃO FOI EXPOSTO NO RODA VIVA
http://almirquites.blogspot.com.br/2014/08/virus-da-doutrinacao-incuravel-foi.html

Em tempo: a expressão "mar de lama" também é de Carlos Lacerda. Veja aqui:
O MAR DE LAMA E O IMPEACHMENT
http://almirquites.blogspot.com.br/2014/12/o-mar-de-lama-e-o-impeachment.html
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Leia mais aqui:
(Clique sobre o título)
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